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Marrabenta: evolução e estilização 1950-2002

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A Marrabenta é o principal ritmo musical de Moçambique, bem no coração da sua identidade. Ritmo urbano, a sua estilização deve-se a pessoas urbanizadas que, distantes do seu meio social e cultural e sujeitos à influência da cultura ocidental, criaram este ritmo, pegando noutros já existentes como a Magika, Xingombela e Zukuta. Começou no final dos anos 30, mas será na década 50 que se tornaria popular  com conjuntos como Djambu, Hulla-Hoope Harmonia.A marrabenta incorporou vários ritmos folclóricos, é produto da miscegenação cultural das gentes do Sul do Save, e da dinâmica sócio-cultural. A sua estilização verificou-se nas Associações de Naturais que tiveram um papel importante na defesa da cultura e identidade cultural dos africanos no período colonial caracterizado pela supressão sistemática de qualquer manifestação cultural por parte dos nativos, consideradas folclóricas.

Assim, as Associações, Associação Africana (AA) e o Centro Associativo dos Negros da Província de Moçambique (CANPM) vão contribuir para o resgate da identidade e cultura moçambicana apesar da obrigatoriedade de cantar e dançar músicas e ritmos portugueses entre 1912 a 1975, aquando da Independência. Para a adopção e promoção da cultura moçambicana, destaque-se o trabalho de José Craveirinha (Associação Africana) e Samuel Dabula Nkumbula (Centro Associativo dos Negros) que, devido à consciência politica e cultural, contribuem para a adopção e promoção de ritmos, músicas e danças africanas nas associações. A Marrabenta passou por várias fases.

Origens da Marrabenta

A Marrabenta terá tido origem na região sul de Moçambique como demonstrado pela língua utilizada e pela maioria dos seus praticantes que são todos oriundos desta região que comporta Maputo, Gaza e Inhambane. O nome Marrabenta provem de rebenta, associada ao dançar em excesso. Nas décadas de 30 e 40 na Mafalala, um dos principais bairros suburbanos da então Lourenço Marques, terá surgido o nome Marrabenta . Na Mafalala, na Associação Beneficiente Comoreana, sala de recreação e diversão, então conhecida pelos locais como ‘Comoreanos’  terá surgido o nome ‘Marrabenta’. O local era assim chamado pelo facto dos seus associados serem provenientes das Ilhas Comores. O ‘Comoreanos’ era um Cabaré onde a população suburbana se divertia. Então, um dos ritmos que se dançava ali era a ‘Marrabenta’ que até então, anos 1930, não tinha nome.

Factores que contribuiram para a estilização da Marrabenta

A estilização da Marrabenta terá resultado da combinação do movimento migratório de Moçambique para a África do Sul e vice-versa, realizado predominantemente por indivíduos de origem rural que emigravam para as minas sul-africanas à procura de melhores condições de vida. No seu regresso, introduziam ritmos, aparelhos, discos e músicas apreendidas e ouvidas na África do Sul junto às suas famílias. Desta forma faziam com que estes entrassem no meio rural ou suburbano de Lourenço Marques, provocando a familiarização do meio sócio-cultural com estas novas expressões culturais, levando à gradual aculturação dos seus familiars mais próximos e habitantes.

A rádio contribuiu bastante para a propagação destes ritmos devido à preferência da população africana por esta fonte de informação dado que a maioria da população era analfabeta e sem acesso à informação escrita. As bandas americanas e suf-africanas também tiveram a sua influência. As bandas americanas tinham adeptos junto de um público africano mais evoluído que escutava as bandas americanas de jazz, enquanto que as bandas sul-africanas eram preferidas pelos emigrantes moçambicanos que estavam em contacto directo com a música negra sul-africana. Assim, a vinda de bandas sul-africanas a Moçambique vai despertar nos moçambicanos a vontade de as imitar. Pois, em 1951, chega a Moçambique o agrupamento sul-africano ‘Zonk’, constituído por negros. Foi a primeira vez que se viu e ouviu uma guitarra eléctrica em Moçambique tocada por negros . Isto teve um enorme impacto sobre a população negra, como se pode imaginar.

As associações contribuíram para o surgimento e desenvolvimento de uma consciência cultural, social e politíca, apesar das restrições impostas pelo Estado colonial Português. Ao permitir a sua criação e surgimento, o Estado colonial tinha em vista o controlo, orientação e a introdução de elementos da cultura portuguesa no seio destes grupos e, ao mesmo tempo, impedir a formação de uma frente comum por parte dos colonizados.

O surgimento da Marrabenta nas associações foi o culminar do processo de ‘Regresso às Origens’, iniciado na década de 1940 por vários pensadores e dirigentes africanos. Este movimento foi liderado por um grupo de intelectuais e usava como armas a culinária, a poesia, a música, o desporto e arte para afirmar valores e a identidade africana. Deste periodo destacam-se poetas como Rui de Noronha, com o poema ‘Surge et Ambula’, publicado em 1936, e Noémia de Sousa com ‘Sangue Negro’ de 1949. O momento mais celebrado deste movimento acontecerá em 1959, com a realização do espectáculo musical denominado ‘Concerto de Música Folclórica’ envolvendo as bandas ‘Hulla-Hoop’, ‘Harmonia’ e ‘Djambu’ na AA. Este evento foi o primeiro da história da música negra moçambicana segundo o ‘Brado Africano’ , que o apelidou ‘O Concerto Musical do Ano’. A experiência serviu para confirmar a viabilidade da execução de números folclóricos. Os agrupamentos musicais contribuíram, por seu turnom para a difusão da música ligeira entre a população africana, para a divulgação dos ritmos moçambicanos e a sua penetração no seio da população colonial. A dinâmica exibida pelas associações na segunda metade da década de 50 na defesa e promoção da cultura africana deveu-se às duas importantes figuras: Craveirinha na AA e Dabula no CAN.

Estilização da Marrabenta 1950-1960

A estilização da Marrabenta verificou-se pela interpretação de músicas populares com instrumentos de origem européia. Este processo deu-se a 1958/9 com a realização do primeiro espectáculo de música negra em Moçambique, como fizemos referência na secção anterior. O espectáculo foi um sucesso, pois os espectadores vibraram do princípio ao fim. Era a primeira vez que assistiam a um concerto cuja temática era apenas a música local. Neste processo destaca-se a Orquestra Djambu que se encontrava sediada no CAN, o Conjunto Hulla Hoop, mais tarde João Domingos e o Conjunto Harmonia.

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